Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

suspensão


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Dias de correria... blog em suspensão...

Que música tenho escutado, além do repertório das aulas e coreografias das alunas? Estou apaixonadíssima, sempre, por Impressões Seresteiras N.2, e continuo não entendendo o fato de esconderem essa maravilhosa composição de Villa-Lobos atrás das Bachianas Brasileiras N.5. Impressões Seresteiras na primeira fila já!!

Domingo, 25 de Maio de 2008

todo o tempo de que precisamos


Sim. Definitivamente estou querendo adotar o Orlando Pedroso. Será que o processo vai ser muito complicado?!
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O Filipe Garcia disse que odeia relógios. Quem não detesta estar se afogando em coisas por fazer enquanto, com um copo de café com coca-cola numa mão, caneta na outra, celular equilibrado entre um ombro e um ouvido, cotovelo apoiado sobre aquela pilha de papéis e livros, telefone tocando no outro canto da mesa, o pé tentando alcançar aquela ficha que caiu, a cadeira estrategicamente posicionada de forma que o chefe não chegue fatal e silenciosamente, os olhos procuram o relógio e desesperados compreendem que, putaqueopariu, não vai dar tempo mesmo!?
Ou então acontece o contrário: você quer que o tempo passe voando pro expediente acabar logo, pro telefone tocar e ser aquela pessoa, pra ter uma desculpa pra esticar as pernas e conversar com os colegas na hora do café, pro ônibus finalmente chegar, nem que tenha gente quase saindo pela janela...
Tenho um ex que, durante um tempo, simplesmente resolveu abolir o relógio. Não usava porque detestava se sentir controlado pelos ponteiros que corriam sem parar: tempus fugit... tempus fugit... Na época achei curioso. Eu vivia pra dançar, nem as aulas importavam. Ia às duas da tarde pra academia, dava duas aulas, fazia outras duas, então vinha a aula de ballet e logo depois o ensaio com o grupo de dança. Nos intervalos, malhava. Chegava sempre por volta das dez, dez e meia da noite, dor no corpo inteiro, joelho roxo, pé torcido, dois dorflex pra dormir, mas era feliz. Ah, eu fui feliz naquela época! A maratona de trabalho e estudo ainda não tinha começado. Ainda não virava madrugadas fazendo textos acadêmicos pra mim e pros colegas: "ah, mas você é tão boa com textos, me ajuda com este aqui??" e "ah, sua letra é tão bonita, faz as legendas do projeto pra mim??". Maquetes, projetos, plantas, cortes longitudinais e transversais, fachadas, elevações, perspectivas, plantas de situação, detalhamento, tardes e noites nos laboratórios de informática e de maquete procurando terminar trabalhos no prazo, saindo às onze da noite pra coreografar danças que seriam apresentadas por minhas alunas naquele fim de semana enquanto cumprimentava colegas que chegavam carregando colchões e travesseiros, sanduíches, garrafas de café, misteiras, e eu só queria que o dia tivesse trinta horas e que um lança-chamas brotasse de repente nos meus braços pra que eu pudesse incinerar todos os relógios do planeta. Fahrenheit 451: o fim das horas.
Ah, o tempo é cruel. O relógio, por tabela, é um carrasco.
Costumava pensar assim. Mas numa das felizes ocasiões em que dei uma rasteira nos compromissos e tirei um tempo pra mim, cheguei à conclusão de que o tempo que tenho é exatamente aquele de que preciso. Exatamente. O que me falta, na verdade, não são vinte e quatro horas a mais, mas a coragem de parar e planejar, organizar. Se escolhi um emprego que me toma o tempo quase todo, está valendo a pena? O que eu gostaria de fazer? Pra que eu gostaria de ter tempo? Por que eu não consigo dar conta de tudo o que tenho pra fazer? O que é mais importante e por onde eu vou começar? Acredito, sim, que temos todo o tempo de que precisamos, só o que nos falta é organizar esse tempo. E não, não me converti aos textos e livros de auto-ajuda. Continuo desviando o olhar destes últimos quando estou numa livraria. Estava numa fase um tanto infrutífera há alguns dias e resolvi mendigar temas no último post. Este foi um dos que surgiram. E abro espaço aqui pra quem quiser xingar também os relógios, ou pra quem quiser discutir minha "tese". Sejam cruéis, adoro quando criticam o que escrevo: quem acha bonitinho coloca numa prateleira e, se gostar muito, tira o pó de vez em quando. Quem vê de forma crítica abre portas. E a última coisa que quero, ainda, é um céu eternamente plácido, pleno de honras ou congratulações...
Aliás, já que mencionei Fahrenheit 451, vale muito a pena ler o livro. Esse é um dos que li quando menina e que quero muito reler. Porque o que a gente guarda, no fim das contas, nunca são as coisas, nem os livros, mas as idéias, as lembranças, os sentimentos. E tudo o que se cria a partir disso.
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Ouvindo-vendo um vídeo lindo e triste que uma amiga veio mostrar dia desses. Porque estou saindo de um período de hibernação: mesmo que não tenha ido pra uma cratera lunar qualquer pra ficar bem quietinha, pensar em tudo e tomar as decisões que preciso, consegui me desligar das coisas na medida do possível e me desfazer de muito do que estava me envenenando. Pra essa amiga querida, o vídeo e a música são uma homenagem a um amigo muito especial que se foi, e que até então tinha estado tão perto... tão perto... se a gente ao menos soubesse... Pra mim, marca o fim de mais um período de cinzas e o renascimento de uma fênix muito, mas muito mais forte.


Everyday Things: música por The Cinematic Orchestra (To Build a Home), vídeo por degauze.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

dê-me um tema: dou-lhe um parágrafo.


Pintura do ilusionista e artista Fabrini.
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Chega de tristeza. Cansei.
Vamos fazer assim: me dê um tema, ou uma palavra, e lhe dou um ou dois parágrafos. Porque estou com vontade de discutir hoje. E porque isso é bom. E divertido.
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Ouvindo, outra vez, Hooverphonic: 2 Wicky. Essa música não sai da minha cabeça desde que vi pela segunda vez Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci. E por falar em Bertolucci, recomendo Os Sonhadores. Interessante assistir a este filme exatamente 40 anos depois da revolução de Maio de 68, na França.

Domingo, 11 de Maio de 2008

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Tão cansada da batalha minha de cada dia...
Só me deixa jogar aqui, agora, todo esse peso que não me deixa, que não me deixa continuar...


Retrato em Branco e Preto, Elis & Tom

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

geometria de um fim

ou esboço de um recomeço.

Fotografia: Amanda Com.
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Quando me feri em tuas arestas,
sabes bem que perdi meu eixo, meus esboços
e todas as minhas perspectivas:
as que um dia também foram tuas.
Procurei um ponto de fuga
e não encontrei.

Procurei sair pela tangente,
mas é que linhas que se tocam
e se arranham e se marcam
só me lembravam teu desenho
em três,
em todas as dimensões.

Meus ângulos se estreitaram,
de cento e oitenta passei a noventa graus
e a sessenta e a trinta.
Me curvei, enfim, sobre meus pálidos contornos.
E bem procurei refazer minha circunferência
sem centro, ah, raio...

Fui traçando torto,
rabiscos, rabiscos:
já não sabia desenhar.

Se me fazia artista, era no diâmetro do teu corpo.
Se me fazia arquiteta, era das nossas vontades
e da volumetria instável dos nossos corpos somados.
Não sabia, não sabias
que amar era bem mais do que linhas, assim, jogadas
num plano, em alfa.

Me perdi, me achei incompleta.
Andei em círculos, círculos...
Eu não sabia era amar.

Mas no vórtice que abriste em meu peito,
no vértice dos teus atos e das tuas palavras agudas,
descobri que é mesmo sem compasso,
na incerteza do nosso traço,
que a gente se desenha e se erra e se apaga e se refaz
e aprende a amar, a se amar.

E a gente percebe que por toda a vida foi
inteiro.
Cubo, esfera, pirâmide, homem,
toda forma em que, de perfeita,
não se percebe princípio ou meio ou fim.
Embora a gente saiba que há sempre tanto pra se moldar.

É, a gente segue.
Passos: riscos.
E vai aprendendo a traçar.






A todos os que amei,
e que talvez não saibam o quanto.
A todos os que me amaram e
por alguma razão
jamais souberam dizê-lo.
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Recebi da , há um mês atrás!, o selo Sou uma Diva. Amei, e olha que eu já tinha avisado: vou ficar ainda mais insuportável! É por isso que o selo é MEU! Meu e de mais NINGUÉM!

Ah, tá, vai!, divido com a fofa e talentosíssima Morganna, com a sommelière mais linda e chique que eu conheço, a Gil, com a inteligente e engraçadíssima Paula, com a Cris, dona de textos delicadamente lapidados com um precioso talento, e com o Léo... naaahhhh, tenho a vaga impressão de que o Léo não vai gostar de ser chamado de diva... vai? :DD Esquece a última linha e leia: e com a Ju, que simplesmente arrasa como escritora e fotógrafa, apesar da modéstia...!

Ouvindo Wish (Komm Zu Mir - Franka Potente und Thomas D.), porque eu ainda queria ser uma princesa com poderosos exércitos nas mãos...

Sábado, 12 de Abril de 2008

e a liberdade pra mim será sempre azul


Outra vez o maravilhoso Orlando Pedroso.







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Aquela imagem ficou perfeitamente gravada na minha lembrança. A fuga, a ascenção, as asas enormes abertas.
Eu não sabia que aquele pássaro tinha asas tão grandes e bonitas...
Eu não sabia que ele podia ser tão mais bonito livre...
Eu não sabia...

Hoje a palavra é da Verônica Martinelli, do Toda Forma de Poder.

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Pra quem gosta de bons vinhos e de uma boa conversa ao molho de inteligência, bom humor, elegância e sensibilidade: abrindo e di vin.
Pra quem gosta de arquitetura, de dar muita risada com preciosos achados na internet (pára de esconder essa carteirinha de nerd, Trosco!!) e de discutir um pouco sobre TUDO: idéias descabidas.

E Gil, Léo, quero minha comissão viu! Hahaha!

Uma música: Rue des Cascades, Yann Tiersen.

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

espasmos mentais involuntariamente aleatórios


É que adoro o trabalho do Orlando Pedroso.
ADORO!
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O tempo, desenho-o como quero.
Mas ele faz mais arte em mim do que eu nele.
Ah, tempo travesso, se um dia te pego...


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Essa musiquinha agora não me sai da cabeça:

"O tempo passou a correr, a correr, a correr
O tempo passou a correr, a correr.

E o mato cresceu ao redor, ao redor, ao redor
E o mato cresceu ao redor, ao redor.

Um dia veio um belo rei, belo rei, belo rei
Um dia veio um belo rei, belo rei.

Que despertou a Rosa assim, bem assim, bem assim
Que despertou a Rosa assim, bem assim.


E os dois puseram-se a dançar, a dançar, a dançar
E os dois puseram-se a dançar, a dançar..."


Sempre desconfiei de que era um pouco autista...!

Segunda-feira, 31 de Março de 2008

post scriptum

A ti, que me viste pela primeira vez num café do aeroporto internacional de Hong Kong, como a outros que passaram por minha vida sem nada deixar, dedico também um espaço nesta preciosa caixa de madeira chinesa: o espaço que jamais ousaste, ou soubeste, preencher.

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

souvenirs

ou de tudo aquilo que passa.
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Fotografia por Amanda Com..
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"Tu vicias-me a vista".
Foi bem assim que me disse o Miguel dia destes. Aqueles olhos verdes, aquele sorriso, aquela vontade de atravessar o Atlântico. Guardei a frase, com carinho, na caixa de madeira entalhada à mão que trouxe do oriente há dois anos. É ali que tenho guardado, desde então, os pálidos souvenirs deixados por meus amores. Tudo, desde o primeiro homem que me amou, e que perdeu a vida um ano depois... Presentes, coisas deixadas para trás, frases impossíveis de se esquecer, horas que não cabem em tempo algum.
Foi lá que guardei a linda gravura de Ísis, mãe do Egito, junto com as imagens da incrível, moderna e contrastante Hong Kong. Junto com os abraços quentes, com o humor inteligente e ao mesmo tempo ácido daquela criança grande que esqueceu de sair da 'Terra do Nunca'. Junto com aquele brilho que ele tinha nos olhos quando me chamava de Aziza El Laziz, a bela e doce. Guardo as risadas que me faziam rolar quando ele dançava sozinho em frente à tevê ou imitava um indiano tentando falar inglês. Guardo o gosto do sorvete Häagen-Dazs e do Big Mac que dividimos, ainda me divertindo com a idéia de que um descendente de um dos grandes faraós do império egípcio tenha se rendido tão facilmente à armadilha capitalista norte-americana.
Agora são só souvenirs.
Lá guardei também, entre outras pérolas negras que só ele vai entender o significado, as duas músicas flamencas e as deliciosas noites de conversas sobre todas as coisas. Guardei minhas lágrimas e suas palavras. Palavras de quem não pertence a lugar nenhum, mas já esteve em quase todos eles. E de toda parte me traz uma frase carregada da sabedoria cigana: "A mente é teu paraiso ou teu inferno." A mais pura verdade. Ao som de uma rumba flamenca, coloco então uma rosa nos cabelos, cubro-me com meus sonhos brancos e vermelhos. Aguardo, no cais da liberdade, a hora de embarcar no 'Madre de Dios' e vencer os mares do infinito rumo a este paraíso que os gadje não conhecem e que afirmas existir...
Ainda hoje, guardei as palavras da letra de uma música que um moço com nome russo tomou emprestadas e me dedicou:
"Talvez escreva um poema
No qual grite o seu nome."
Ele que há tempos chegou como um furacão, sem o menor aviso. Me amou como se nunca tivesse amado, ou como se nunca mais fosse amar outra vez. Foi embora bem assim, como um furacão se desfaz depois de tirar nosso chão e nosso teto. Mas antes emoldurou meu rosto: me vi pelos olhos dele e chamei o que vi de "A Bailarina do Vestido Branco". Ele diz que vivo em um mundo errado, um mundo que não é meu. Eu digo que vivo no mundo que preciso. E que não acredito no acaso. Hoje ele me chama de mulher-bailarina. E sempre entra em cena quando menos espero. Assim como se nunca tivesse partido um dia. Me provoca um sorriso, me desarma. Mas é que eu não sei jogar. É que eu não gosto de jogar. Não: eu me jogo.
Ah, e ele... o dono dos poemas que 'não me entregou'. Os poemas que retiro da caixa às vezes e releio, e então quinze anos correm diante dos meus olhos de repente desorientados. Sim, correm. Porque 'tempus fugit', lembra? Como naquele livro que te dei de presente e que diz 'vita brevis'. Claro, que mais haverias tu de fazer, então, senão 'carpe diem'? Que mais haveria eu de fazer, meu anjo azul, senão juntar meus cacos e reconstruir meu chão? Ah, moço das letras, da música, do teatro, dos mil talentos, das teorias, dos teólogos, dos pensadores... É que pintaste para nós a possibilidade de um futuro tão rico, e então a desfizeste num tempo surpreendentemente breve. Sabes que me lembraste o deus Shiva? Sim. O deus Shiva com muita, muita pressa.
Ia escrever-te estas palavras. Mas é que o tempo foge...
Hoje, ainda correndo, me chamas de menina-balzaquiana. E não sei se tu sabes que ainda guardo com todo carinho aquele nosso primeiro beijo, na chuva. Aquele banquinho de madeira do parque, debaixo da árvore-dos-frutos-assassinos, de frente pro lago onde os patos divertiam as crianças e com elas eu me divertia, ousando imaginar que um dia seriam nossos filhos a tentar encostar nas tartaruguinhas que nadavam na beira à espera das migalhas de biscoito. Guardo cada minuto como um delicioso souvenir: por mais breves que sejam nossas horas e nossos dias, por mais que tudo sempre passe, foram aqueles mesmos minutos que foram construindo e moldando cada pedaço do INTEIRO que somos hoje.
Sigo guardando tuas fotos, meu anjo sábio, vivido, artista que mora na praia e que desce à pracinha de noite pra ver as estrelas e a lua... A carta celeste continua aqui, moço astronauta, involuntariamente impressa em meu corpo, para que meus amores não se percam. Muito embora eu mesma jamais tenha me encontrado.
E guardo teus beijos viciantes, tuas palavras fortes, teu jeito intenso e inteiro de amar, inconfessável delícia que veio com o Carnaval. Brinco com nossas lembranças como uma criança brinca com um presente novo, cheio de cores, de sabores, de perfumes. Embalo-as ao som daquela nossa trilha perfeita, das minhas composições preferidas, que tu bem sabes quais são. Ah, se ao menos tivesse te conhecido há dez anos...
Pronto. Joguei aqui muita coisa. Se dói menos? Não sei. Mas sinto-me um pouco mais leve. Pronta pra seguir em frente, seja pra onde for.
Quanto aos souvenirs, continuo guardando. Quem sabe um dia ainda faça com eles uma instalação artística e ganhe, por fim, um prêmio: algo que não vai escapar, com pressa, por entre os meus dedos. Algo que fique, enfim.
Ainda que, então, seja eu a ir embora.
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Ouvindo Hooverphonic: Inhaler e One.
Esta última pegou pirraça, não quer mesmo sair da minha cabeça...
Ah, aumentem bem o som: não dá pra ouvir Hooverphonic baixo!

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

de braços bem cruzados

"Mulher de Braços Cruzados", Pablo Picasso.

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"Art is a window into existence and how people perceive that existence." *
Julian Gallo ..
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A obra da fase azul de Picasso ilustra um texto de Jorge Coli publicado na Folha de São Paulo em 16 de dezembro de 2007. Apocalypse Now foi um dos textos debatidos durante um interessante curso de formação de arte-educadores de que participei no último fim de semana. Além de questões relacionadas à apresentação, à compreensão e ao trabalho da arte contemporânea com crianças, foi inevitável discutir a transformação que a arte vem sofrendo, seu sentido, suas funções na sociedade e seu futuro.
Já andava querendo voltar ao assunto arte desde que comentei um artigo do amigo e artista Julian Gallo: consciente de que a arte tem um papel cada vez mais questionador, informador e formador na sociedade contemporânea, Julian ouviu certa tarde uma discussão entre dois amigos sobre o que seria arte em termos de feio ou belo, do que tem sido feito e do que anda "ultrapassado". Imaginei logo dois daqueles sujeitos que se fantasiam com roupas esquisitas e vão a um café da moda em Nova York com a mesma discrição de quem sobe ao palco do Carnegie Hall. Bem, talvez a Ópera de Sydney, de linhas arquitetônicas mais comportadas, fosse um palco mais apropriado... Cruzam então os braços feito a mulher da pintura de Picasso, proclamam-se artistas e conduzem a tal arte como quem conduz o último modelo da BMW, permitindo-se condenar à câmara de gás todo aquele que se atrever a fugir do limitado catálogo que aprisiona e mutila a arte segundo conceitos tão rasos e hipócritas quanto seus penteados bizarros ou o estiloso modelo de seus óculos novos.
Então seria a arte essa coisa distante, elitizada, violentada por questões econômicas, sociais e políticas, reduzida a um supérfluo artigo de luxo? Condenada por um mundo cada vez mais acorrentado ao consumismo e às novas tecnologias e pela catastrófica visão do filósofo e urbanista francês Paul Virilio, para quem a evolução das técnicas acarreta necessariamente uma involução das artes? Que dizer deste cenário caótico?
Se algo pode provocar uma resposta a tudo isso, acredito que esse algo seja, por ironia, a própria arte.
"Ao ser interrogado sobre qual seria o futuro da arte, um crítico respondeu: 'Não sei. Se soubesse, estaria comprando' ", começa Jorge Coli. "Entre a provocação e o cinismo, a tirada assinala o quanto as artes dependem do mercado. Nenhum artista, seja ele poeta ou cineasta, inventor de instalações ou navegador no ciberespaço, consegue viver de sua arte se não vendê-la."
"As artes dependem desses processos de compra e venda, no qual se infiltram também os mais diversos tipos de oportunismo publicitário que transformam a obra em produto."
Verdade. O artista, enfim, precisa sobreviver, tanto quanto aqueles que desempenham qualquer outra função. E já que estamos discutindo sobre função, qual você, que lê agora este texto, pensa ser a função da arte?
Quanto a mim, hoje me arrependo de ter esnobado a faculdade de Artes por acreditar que eu deveria dedicar meus esforços e eventuais talentos a algo que tivesse real utilidade, como a arquitetura. Ora, se existe arte desde que o homem passou a compreender a si mesmo, ao mundo, a representar o que compreendia através de desenhos e pinturas em paredes, através de esculturas em barro e em pedra, sem dúvida a arte teve e tem uma função. E o que era antes um meio de comunicação, de representação do real, de materialização de crenças, ganha hoje um sentido cada vez maior. E funções cada vez mais vitais.
Seja para expressar, para comunicar, para representar crenças ou simplesmente porque, porra, se eu não criar algo eu vou acabar explodindo nesse mundo de loucos, o fato é que a arte toma cada vez mais para si o tal papel questionador, informador, formador. Não se consegue mais separá-la das questões sociais, filosóficas, políticas, econômicas ou do que quer que seja.
Bonita ou não, simples ou complexa, espiritual, provocadora, interiorizada, subversiva, caótica, questionadora: arte é expressão, ferramenta necessária às descobertas e à evolução, independente de mercados, de críticas, de reconhecimento ou de galerias famosas. Independente. Livre. Portanto, plena de sentidos e de funções que transcendem tempo e lugar.
Voltando a Jorge Coli: "A obra de arte pode ser abalada em suas significações mais profundas por especulações financeiras, vaidades mundanas, esnobismos de todo tipo, sociais ou intelectuais. São falsos semblantes. O cerne mais verdadeiro permanece, mesmo quando ocultado."
"Hoje, grandes receios levam a sentir o futuro como apocalíptico, no qual uma estabilidade, por precária que seja, esteja se perdendo definitivamente. Porém ganha-se, em troca, uma rede de comunicações imediatas, com prodigiosas facilidades de deslocamento sobre todo o planeta. Isso deveria provocar fecundações nos processos de criação, já que as artes são feitas de diálogos, trocas, contaminações. Nada impossível que ocorram."
O futuro?
"Talvez chegue mesmo o apocalipse. Talvez os oceanos invadam as terras, talvez o planeta morra, talvez nós consigamos exterminar a nós mesmos. É só quando isso acontecer, e só então, que a arte não terá mais sentido", pontua Coli. E acrescento: nem função alguma.
Com licença, mestre Picasso, entendi o claro recado: é hora de descruzar os braços.
Ah, o resultado do curso? Posto depois as fotos da nossa intervenção... vontade de fazer tudo outra vez!
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* A arte é uma janela para a existência e para o modo como as pessoas percebem essa existência. (Julian Gallo)
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Outros posts relacionados:
Sobre Arte Contemporânea
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Sábado, 8 de Março de 2008

querer

Fotografia de Amanda Com.

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"Por que é que eu sou o único que você não possui? O único a quem não se entrega?"

"Porque você é o único que eu realmente quero."

Era assim.
Eram jogos que aparentemente não faziam sentido algum.
E o que é que, no fim das contas, faz sentido nesta vida?
O amor?
Não, não. Este é o que menos sentido faz.
Para os jogos, os abomináveis jogos, ainda somos capazes de balbuciar uma possível e débil explicação.
Amor não.
Amor é coisa de gente louca.

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A talentosa e, como se não bastasse!, linda e simpática Juliana do Quintal de Cores me presenteou com cinco selos de uma só vez. Ah, a semana dos presentes... Minha vez: passo os selos à Amanda do Fear of Dolls (está intimadíssima a voltar a escrever, mulher, mexa-se!), à Jô do Fragmentos de Jô, à Luca do Lunaticidades, ao L.S. do Máquina de Letras, ao Tiago do The Thinker.
Os selos são: Heart's Blog, Este Blog Proporciona Sensações Alucinógenas, Este Blog Não me Sai da Cabeça, My Blog Has Total Force e Este Blog Merece ser Premiado Sim!

Ouvindo It's a Long Way, música de Caetano Veloso interpretada por Olivia Broadfield.
Ouvindo também Dead Monkeys Jumpin' Around, de Lolly Gehrman (mulherrr, volte a fazer música também, AGORA!! rs).

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

reencontros

Princípio de ano um tanto conturbado, é verdade. Mas um princípio de ano que trouxe também reencontros.
Reencontro com a vontade de retomar as obras da minha própria vida. Reencontro com velhos projetos que ainda fazem tanto sentido quanto antes, talvez mais. Reencontro com as tardes de domingo à mesa do almoço, com o bom humor de meu pai que a dureza da vida fez questão de poupar, com as deliciosas histórias de família que fizeram falta durante os primeiros anos sem minha mãe, os anos que ainda doem, que sempre vão doer. Reencontro com as paisagens da minha infância, de quando tudo parecia tão possível, tão perto dos olhos, das mãos, do coração.
Como é bom ver e ouvir outra vez o piano, os vinis de Beethoven, as memoráveis e bem humoradas histórias de meu pai. É impossível manter-se sério quando ele conta do amigo que cultivava um vistoso e bem cuidado pé de maconha na sala de visitas, ou do conterrâneo que enriqueceu da noite para o dia depois de comprar os últimos carregamentos de soda cáustica antes que esta começasse a faltar em vários países _ e então a gente se coloca, inevitavelmente, a imaginar quantos milhões a mais ele teria lucrado se as fábricas daquela época mantivessem já o singelo costume de adicionar o produto ao leite que consumimos... Mas as lágrimas de riso envolvidas por um certo desespero me aparecem mesmo é quando ele conta da esposa do mesmo e próspero conterrâneo: empolgadíssima com o andamento dos negócios da família, não resistiu à enorme tentação de compor em casa uma bela e respeitável biblioteca. Mandou chamar o decorador para medir a sala de cima a baixo e de um lado ao outro e, satisfeitíssima, encomendou três metros de livros vermelhos, cinco de livros verdes, seis de livros azuis... Bem, não resta dúvida de que ela, de um modo ou de outro, realmente "adquiriu" cultura. Alguém discorda?!!
Ouço, encantada, meu pai contando da infância de sua mãe, que completa neste dia nove de março cento e um anos bem vividos e lúcidos. Ouço contar de meu bisavô, que ensinou a ler, escrever, contar e tocar piano a um por um dos nove filhos, e ia a cavalo de uma fazenda nos arredores de Juiz de Fora, Minas Gerais, até o Rio de Janeiro ("caraca"!) para ensinar piano às moças das "boas famílias" da época.
Guardo com carinho as palavras, o tom de voz, as lembranças, tudo o que eu quero que não passe nunca, e ouço em algum lugar aqui dentro a razão discutir com o sonho a respeito da inevitável impermanência das coisas. Ensaio um jeito de escorregar da minha pele de ovelha negra e dizer "te amo além do tempo e da razão", e no minuto seguinte sou outra vez a ovelha negra fazendo o que não devia, dizendo o que não devia. Mas é que ainda tenho tanto o que aprender, tanto o que construir.
Até que os sonhos pareçam outra vez possíveis, perto dos olhos, das mãos e do coração, sigo construindo as nossas próximas lembranças. Os nossos eternos reencontros.
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Então: as talentosas amigas (ainda) virtuais Dominique e realmente sabem como mimar perigosamente alguém: a primeira me deu de presente os selos Blog de Elite e Amizade Virtual; a segunda também me indicou a dois selos, o Blog Parada Obrigatória e Esse Blog é Show de Bola. Preciso dizer que adorei? Então, adorei! E agora vem a parte difícil: os próximos indicados... Bem, dessa vez indico (aos quatro selos) a Gil, do Abrindo, a Paulinha, do Carlota Polar, a Bárbara, do Devaneios & Loucuras, a Morganna, do Estalar os Dedos e a Juliana do Quintal de Cores. Apesar do atraso, e mesmo que já tenham recebido um ou outro selo, considerem-se presenteadas e incentivadas a escrever sempre mais e melhor!
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Ouvindo Nina Simone: For All We Know (linda de doer, pena que não consegui link) e My Baby Just Cares for Me (amei o vídeo desta última!)

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

fotografia cigana


Eis um dos instantes roubados pela fotografia que hoje, amarelada, não vai trazer aquela doce criança de volta: minha mãe. Incrível como éramos parecidas nessa idade...
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Aquele fim de tarde, disse a ele, trazia o mesmo gosto amargo de uma fotografia amarelada de criança que nunca mais voltaria a se refratar no instante real.
Sentia-se, mais do que nunca, permeável, breve, volátil. Violentamente atropelada pela dor de tudo o que já havia passado, de tudo o que passava agora, de tudo o que ainda haveria de passar.
Ele buscou num canto do quarto o violão flamenco, sentou-se perto dela e começou a dedilhar as cordas, buscando alguma canção que lhe dissesse "não chore". Ela olhou as castanholas em cima da mesinha, os sapatos de taconeo, o mantón jogado sobre o encosto da cadeira, a saia de dois volantes estendida sobre a cama, tudo preparado para a cena daquela noite. E tudo lhe pesou.
Sua rica história de batalhas pesava. Suas armas marcadas e ainda reluzentes pesavam. Suas derrotas pesavam. E, mais do que tudo, lhe pesavam as vitórias. Porque ela sabia: assim como aqueles bonitos acordes que ouvia agora, assim como as cores das fotografias de criança que guardava, também as vitórias acabariam por passar.
Bem assim, como tudo passa na vida.

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Ouvindo O Bêbado e a Equilibrista e torcendo pra voltar logo a ter internet em casa pra postar com calma e falar dos presentes da e da Dominique...

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

o vazio e a dor


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"...meu tesouro por seu pensamento", por Amanda Com.
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"Adoro poemas", ele disse.
"Mas prefiro seu corpo".
Era bonito de ouvir.
Mas ela sentiu outra vez aquela estranha e amarga sensação torcendo-a por dentro.
Outra vez aquela dor solitária. Vazia...
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Ouvindo: We Rule The School, de Belle and Sebastian, e Side, de Travis. (O link pra música de Belle and Sebastian é de um cover, não consegui encontrar o video com eles... pelo menos o garoto é afinado, canta bem...!)

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

você que eu não superei


"Contrastes", foto por Amanda Com.
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O you who I am not through

And why did I see that movie.
And why did I read that poem.
"Daddy", she wrote, "I'm through".


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Now I hold my heavy heart
and say nothing to mom but you,
O you who I am not through.

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É que vi essa semana um filme sobre a vida da escritora Sylvia Plath. Pesquisando mais sobre sua obra (nem acredito que não tinha lido nada dela ainda!), li um de seus mais famosos poemas, "Daddy".
Forte, amargo, complexo, cruel. Lindíssimo.
Não consegui encontrar a tradução do poema, dizem que é um dos mais difíceis de se traduzir. E relendo-o, concordo. Inclusive acho que, traduzida, toda obra perde um pouco da essência do escritor. Assim como todo filme dublado compromete mais da metade da interpretação do ator, na minha opinião. Enfim, a tradução é a forma que existe de fazer essas obras alcançarem um público maior e chegarem até a gente. E agora já começo a reavaliar minha aversão (leia-se também "alergia congênita"!) aos filmes dublados, e chego mesmo ao incrível ponto de perdoar as boas dublagens. Mas somente as boas!
Se alguém encontrar este poema traduzido, me avise!
Se eu encontrar primeiro, posto aqui. Vale a pena.
Para os fãs dos escritos de Sylvia Plath, procurem também as obras de Anne Sexton. Os estilos são bem parecidos.

E o pequeno e simples poema acima nasceu enquanto eu lia "Daddy" pela segunda vez _ a esta altura meus olhos já começavam a desinchar e meu rosto já voltava ao normal. É que também já passei por perda semelhante e a sensação foi cruel durante muito tempo. Isto e o talento de Sylvia mexeram muito comigo. E se para o poema dela não encontrei tradução, pelo menos para as minhas simples seis linhas nascidas desse forte encontro com sua obra existe uma tecla SAP!

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Outro presente da , e já disse a ela que estou ficando perigosamente mimada!
É o selo "Blog Cabeça". Adorei, Jô! E vou usar um critério parecido: presentear cinco dos blogs interessantes que ainda não têm o selo. São o Carlota Polar, da Paulinha; o Dominus, da Cris; Estalar os Dedos, da Morganna; Ma passion rouge, da G. e Nil Brito, do... Nil Brito!

Sintam-se à vontade pra pegar o selo e indicar outros blogs _ ou não!

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Ouvindo: High School Lover, do Air, e Esquadros, de Adriana Calcanhoto.
Porque é difícil escolher uma só. Porque Air me lembra uma amiga muito querida, a mesma que me emprestou o filme Sylvia. E porque minha mãe amava as composições e a voz de Adriana.

Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

maya e a pílula azul

'New York After It Rains', de Julian Gallo, um amigo geograficamente distante mas muito querido. Músico, escritor, pintor... uff, será que existe alguma coisa que ele não faça?! =)
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The worst thing is she can see that she is taking the blue pill. Every day. When will she wake up?


Curioso, pensou ela olhando a pílula que tomava de vez em quando para dormir. Azul. Azul claro, precisamente. Quem sabe feita na medida exata para potencializar aquela sensação de calma que ela sabia se aproximar.

Fechou a caixa e olhou o título. Escondeu com o polegar da mão direita as últimas letras, de modo que lia-se apenas as quatro primeiras: Soma.

Soma? Ainda mais curioso. Esboçou um meio sorriso entre o deboche e um certo divertimento sincero: Aldous Huxley nunca havia mencionado a cor da pílula que os habitantes do 'Admirável Mundo Novo' tomavam para se manter, a maioria inadvertidamente, naquele estado semi-letárgico. Mas talvez, pensava ela agora, talvez fosse azul. Tornaria tudo ainda mais curioso.

Maya, insuportavelmente insone e algo ansiosa, tomou de uma vez a pílula enquanto pensava na simbologia das drogas e da sociedade adormecida e das pílulas vermelhas e azuis e dos unicórnios e coelhos brancos e do poder de escolha que permeava livros e filmes que conhecia.

Pensou, inevitavelmente, no significado de seu próprio nome: ilusão. Tudo aquilo que não pode ser aprisionado em rótulos, porque foge. Porque muda. Porque se move. Sempre.

Sentiu o sono chegando. Cenas recomeçavam a alternar-se como num filme.

E se não fugisse? E se recusasse o Soma e seus efeitos alienantes? E se tomasse a pílula vermelha e pudesse então acordar?

Maya não deixaria de existir. Apenas rasgaria o véu que a separava tão sutilmente de tudo aquilo que podia ser nomeado e compreendido, e espiaria através dele. Veria nítido o mundo árido que sempre soube existir. E então talvez descobrisse que nem mesmo esse outro mundo podia ser compreendido.

Talvez tocasse o chão do outro lado com a ponta dos pés, e o sentisse tão outro que não saberia caminhar ali. Acostumada a um cenário que girava sempre, sentiria vertigens ao tentar passar para o outro lado. Assustada, esconderia-se outra vez atrás do fino véu e talvez procurasse costurá-lo.

Mas entre uma dança e outra, sempre voltaria a colocar suas mãos de leve no véu, e percorreria com a ponta dos dedos a linha com a qual o havia remendado. Olharia para o outro lado. Até que uma nova música a fizesse dançar novamente, esquecendo-se, por instantes, até de si mesma.

A pior coisa para Maya era ter plena consciência de que acabava por tomar a pílula azul. Todos os dias. Era saber do outro lado e querer acordar. Porque não queria ser metade. Queria ser plena. Sol e lua. Céu e mar.

Ela agora sentia-se adormecer. Fugia, outra vez, para onde nasciam os sonhos.

E sonharia com pílulas vermelhas e azuis, com unicórnios e coelhos brancos.
Com o outro lado do véu.
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

parênteses para um gênio

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Banner do filme "O Amor nos Tempos do Cólera", dirigido por Mike Newell e baseado na obra de Gabriel García Márquez. Fiz pequenas modificações no banner usando paint e photoshop, mas a arte é basicamente esta.
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"Na última sexta-feira de fevereiro, três dias antes da reabertura dos colégios, tia Escolástica foi ao telégrafo perguntar quanto custava um telegrama para o povoado de Pedras de Moer, que sequer figurava na lista, e se deixou atender por Florentino Ariza como se nunca se tivessem visto, mas ao sair fingiu esquecer em cima do balcão um breviário encadernado em couro de lagarto dentro do qual havia um envelope de papel de linho com arabescos dourados. Transtornado pela ventura, Florentino Ariza passou o resto da tarde comendo rosas e lendo a carta, repassando-a letra por letra uma vez e mais outra e comendo mais rosas quanto mais lia a carta, e à meia noite já a lera tanto e comera tantas rosas que a mãe teve que subjugá-lo e prender-lhe a cabeça por trás, como a um bezerro, para que engolisse uma poção de óleo de rícino."

Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera

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Delícia de livro. Ainda projeto um altar, melhor, um santuário (ó heresia!, diria a Igreja Católica) em homenagem a este escritor! García Márquez não é propriamente um escritor cômico. Eu diria denso, deliciosamente exagerado, absurdamente criativo, incrivelmente talentoso e por vezes apaixonantemente surreal. Mas me divirto às gargalhadas com alguns de seus livros. Quem me ouve rir assim, sozinha, deve pensar que sou louca. Mas se todo artista tem seu bocado de loucura, por que os amadores não haveriam de tê-lo também!
Ontem à noite, deitada na cama lendo "O Amor nos Tempos do Cólera", tive um acesso um tanto mais exaltado de riso, e ria tanto que cheguei a me engasgar com um minúsculo mosquito daqueles que ficam rodeando focos de luz depois da chuva. E então foi tanta tosse que só consegui voltar ao normal depois de ir à cozinha tomar um pouco de água. Mas aí, a cada manifestação dos resquícios da crise de tosse somada a um novo parágrafo genial, a lembrança do acesso de riso seguida da abdução involuntária do pobre e indefeso inseto me atacava e me fazia rir ainda mais, de modo que acabei descobrindo que não ia avançar muito na leitura naquela noite, e decidi colocar o livro de lado e tentar dormir um pouco.
Nessa manhã eu ainda apresentava seqüelas, e tanto pior ficou quando tentei narrar o 'causo' à minha irmã. Devo ter levado dez minutos entre mais risos e frases incompletas e gestos incompreensíveis e meio descoordenados (rir muito me deixa um tanto mole e descoordenada!), mas acho que ela entendeu. Acho.
E estreou o filme baseado nessa deliciosa obra de García Márquez, com uma respeitável Fernanda Montenegro no elenco. Dizem que o filme tem a aprovação do escritor. Mas se tivesse ficado ruim, eu daria total e completa razão a ele no caso de querer processar diretor e roteiristas! Adaptações precisam ser feitas com muito, muito cuidado...! Preciso agora terminar a leitura e correr pra sala de cinema mais próxima pra conferir. E se você já viu este filme, não me conte sobre ele! De "spoiler", como diz outra irmã, basta eu!
Obras deste autor que já li e indico: Cem Anos de Solidão, Relato de um Náufrago, A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e sua Avó Desalmada, Memórias de Minhas Putas Tristes. Além, é claro, deste que estou lendo.
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Ouvindo: Inertia Creeps, do Massive Attack, e a lindíssima Beatriz, de Chico Buarque (este último link é um vídeo do Ballet Stagium traduzindo essa música em movimentos. Coreografia linda. Bailarina perfeita. Adorei!).

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

a verdadeira arte e a verdadeira pornografia



















"Tentação", uma das minhas fotos preferidas da talentosíssima fotógrafa Amanda Com.

"Primeiro post do ano e ela já vem falar de pornografia?"

Sim. Mas primeiro quero falar de arte. Da arte de descobrir o que há de mais bonito no outro e de retratá-lo sem censuras, sem desprezar a poesia que se revela em cada curva, em cada cor, em cada fantasia. Dessa arte Amanda Com entende perfeitamente, e rendo-lhe agora uma carinhosa homenagem com a foto postada aí em cima. Confiram seu trabalho no site olhares.com e vejam do que eu estou falando.

Agora a pornografia no mau sentido da palavra. A pior das indecências.

É que antes mesmo de ver a notícia na tevê essa semana, vi num tópico do orkut que o filho e a nora do Dr. Lídio Toledo haviam sido baleados na Tijuca, Rio de Janeiro. Não tenho costume de comentar em tópicos no orkut. Aliás, nem mesmo tenho paciência de ficar por lá além do tempo necessário pra ler meus recados _ mas como estou de férias, agora tenho uma ótima desculpa pra vocês terem me visto por lá! Enfim, o fato é que não resisti e comentei o tópico.

É uma pena que uma cidade tão linda e tão fortemente ligada ao turismo seja vítima de uma violência tão cega e tão cruel. Violência essa que é um perfeito retrato do descaso dos governantes em relação à educação e às necessidades básicas de cada ser humano. Tenho lá minhas teorias sobre projetos educativos e leis bem mais severas, mas... enquanto não nos juntarmos e não nos fizermos ouvir _ e entender _ por esses mesmos governantes, o que nos resta senão nos resignarmos a uma vida limitada pelo medo e por frágeis medidas de segurança que, na verdade, não nos garantem NADA? É uma pena...

Alguém escreveu, no mesmo tópico, que era a favor de um controle de natalidade, embora fosse “politicamente incorreto”. Bom, não sei se é politicamente incorreto. Mas se é, NÃO deveria ser. Também defendo essa opinião há muito, muito tempo. Acho que temos todos o direito a constituir família, sim. Mas como criar cinco, dez filhos, se não se tem condição de cuidá-los e educá-los devidamente?? Defendo, como escrevi acima, o acontecimento SIMULTÂNEO de projetos educativos, de leis bem mais severas e de um controle de natalidade em favor de uma sociedade mais consciente e mais ética. Acredito que qualquer uma destas medidas sem a outra não vai solucionar problema nenhum, e vamos continuar sujeitando nossa EDUCAÇÃO e nossa SAÚDE àqueles que se formaram, conseguiram mestrado e até doutorado sem saber ao menos escrever corretamente e se expressar bem. Muito menos diagnosticar doenças corretamente e salvar vidas...

Aquele mesmo alguém citou uma inesquecível frase de Martin Luther King:

"O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio e a timidez dos bons."

Ouvia sempre minha mãe referir-se a esta frase com um tom realmente preocupado e lamentável na voz. Concordava com minha mãe. E me identifico com a citação deste que foi um grande líder ativista. Inteiramente.

E a pornografia com isso? Não quero dizer que toda pornografia é expressamente ruim ou que a arte não pode vir associada a ela. Pode. E vem. Disso temos bons exemplos aqui e ali. E no próprio trabalho de Amanda. Mas o governo como está, meus amigos, isso sim é das piores e mais pesadas pornografias que conheço.

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Mais uma coisa! (e agora bateu saudades do tio do Jackie Chan naquele desenho _ sim, eu adorava assistir!):

Ganhei presente de Ano Novo da 'Dominique', do Dominus, blog que estou adorando conhecer! É o selo "Uma mulher que faz pensar". Obrigada 'Dominique', adorei o presente, e agora indico as próximas premiadas:

A Gil, do Abrindo; a Paulinha, do Carlota Polar (tava com saudades viu!); a B., do Devaneios & Loucuras; a Morganna, do Estalar os Dedos; a Amanda, do Fear of Dolls; a Jô, do Fragmentos de Jô; a G., do Ma Passion Rouge; a Natasha, do Nana Flash; a Bruna, do Restos & Sobras e a Mariliza, do Tempo de Saturno.

Bom, o número de indicados não estava determinado, então escolhi o número 10. Porque tenho a leve desconfiança de que números com zero vão me dar boa sorte esse ano…! Então minha única regra é essa: escolham um número, entre 1 e 11, que acham que vai dar sorte a vocês! E peguem o selo aqui ó.

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Ouvindo a deliciosa "Under Your Command", do músico e artista recém-formado Nuél Schoch, criador do projeto musical KEjNU. Esse moço talentoso e de temperamento forte lançou seu primeiro álbum, 'Induelo' (2006), em Zürich, na Suiça, depois de anos de dedicação e paixão pela música. Seu trabalho mais recente, o álbum 'Companion', pode ser ouvido e BAIXADO nesta página aqui! Podem ter certeza de que vale a pena conferir!