ou de tudo aquilo que passa.
.
.
.
.
.
.
.
.
..
...
.
.
"Tu vicias-me a vista".
Foi bem assim que me disse o Miguel dia destes. Aqueles olhos verdes, aquele sorriso, aquela vontade de atravessar o Atlântico. Guardei a frase, com carinho, na caixa de madeira entalhada à mão que trouxe do oriente há dois anos. É ali que tenho guardado, desde então, os pálidos souvenirs deixados por meus amores. Tudo, desde o primeiro homem que me amou, e que perdeu a vida um ano depois... Presentes, coisas deixadas para trás, frases impossíveis de se esquecer, horas que não cabem em tempo algum.
Foi lá que guardei a linda gravura de Ísis, mãe do Egito, junto com as imagens da incrível, moderna e contrastante Hong Kong. Junto com os abraços quentes, com o humor inteligente e ao mesmo tempo ácido daquela criança grande que esqueceu de sair da 'Terra do Nunca'. Junto com aquele brilho que ele tinha nos olhos quando me chamava de Aziza El Laziz, a bela e doce. Guardo as risadas que me faziam rolar quando ele dançava sozinho em frente à tevê ou imitava um indiano tentando falar inglês. Guardo o gosto do sorvete Häagen-Dazs e do Big Mac que dividimos, ainda me divertindo com a idéia de que um descendente de um dos grandes faraós do império egípcio tenha se rendido tão facilmente à armadilha capitalista norte-americana.
Agora são só souvenirs.
Lá guardei também, entre outras pérolas negras que só ele vai entender o significado, as duas músicas flamencas e as deliciosas noites de conversas sobre todas as coisas. Guardei minhas lágrimas e suas palavras. Palavras de quem não pertence a lugar nenhum, mas já esteve em quase todos eles. E de toda parte me traz uma frase carregada da sabedoria cigana: "A mente é teu paraiso ou teu inferno." A mais pura verdade. Ao som de uma rumba flamenca, coloco então uma rosa nos cabelos, cubro-me com meus sonhos brancos e vermelhos. Aguardo, no cais da liberdade, a hora de embarcar no 'Madre de Dios' e vencer os mares do infinito rumo a este paraíso que os gadje não conhecem e que afirmas existir...
Ainda hoje, guardei as palavras da letra de uma música que um moço com nome russo tomou emprestadas e me dedicou:
"Talvez escreva um poema
No qual grite o seu nome."
Ele que há tempos chegou como um furacão, sem o menor aviso. Me amou como se nunca tivesse amado, ou como se nunca mais fosse amar outra vez. Foi embora bem assim, como um furacão se desfaz depois de tirar nosso chão e nosso teto. Mas antes emoldurou meu rosto: me vi pelos olhos dele e chamei o que vi de "A Bailarina do Vestido Branco". Ele diz que vivo em um mundo errado, um mundo que não é meu. Eu digo que vivo no mundo que preciso. E que não acredito no acaso. Hoje ele me chama de mulher-bailarina. E sempre entra em cena quando menos espero. Assim como se nunca tivesse partido um dia. Me provoca um sorriso, me desarma. Mas é que eu não sei jogar. É que eu não gosto de jogar. Não: eu me jogo.
Ah, e ele... o dono dos poemas que 'não me entregou'. Os poemas que retiro da caixa às vezes e releio, e então quinze anos correm diante dos meus olhos de repente desorientados. Sim, correm. Porque 'tempus fugit', lembra? Como naquele livro que te dei de presente e que diz 'vita brevis'. Claro, que mais haverias tu de fazer, então, senão 'carpe diem'? Que mais haveria eu de fazer, meu anjo azul, senão juntar meus cacos e reconstruir meu chão? Ah, moço das letras, da música, do teatro, dos mil talentos, das teorias, dos teólogos, dos pensadores... É que pintaste para nós a possibilidade de um futuro tão rico, e então a desfizeste num tempo surpreendentemente breve. Sabes que me lembraste o deus Shiva? Sim. O deus Shiva com muita, muita pressa.
Ia escrever-te estas palavras. Mas é que o tempo foge...
Hoje, ainda correndo, me chamas de menina-balzaquiana. E não sei se tu sabes que ainda guardo com todo carinho aquele nosso primeiro beijo, na chuva. Aquele banquinho de madeira do parque, debaixo da árvore-dos-frutos-assassinos, de frente pro lago onde os patos divertiam as crianças e com elas eu me divertia, ousando imaginar que um dia seriam nossos filhos a tentar encostar nas tartaruguinhas que nadavam na beira à espera das migalhas de biscoito. Guardo cada minuto como um delicioso souvenir: por mais breves que sejam nossas horas e nossos dias, por mais que tudo sempre passe, foram aqueles mesmos minutos que foram construindo e moldando cada pedaço do INTEIRO que somos hoje.
Sigo guardando tuas fotos, meu anjo sábio, vivido, artista que mora na praia e que desce à pracinha de noite pra ver as estrelas e a lua... A carta celeste continua aqui, moço astronauta, involuntariamente impressa em meu corpo, para que meus amores não se percam. Muito embora eu mesma jamais tenha me encontrado.
E guardo teus beijos viciantes, tuas palavras fortes, teu jeito intenso e inteiro de amar, inconfessável delícia que veio com o Carnaval. Brinco com nossas lembranças como uma criança brinca com um presente novo, cheio de cores, de sabores, de perfumes. Embalo-as ao som daquela nossa trilha perfeita, das minhas composições preferidas, que tu bem sabes quais são. Ah, se ao menos tivesse te conhecido há dez anos...
Pronto. Joguei aqui muita coisa. Se dói menos? Não sei. Mas sinto-me um pouco mais leve. Pronta pra seguir em frente, seja pra onde for.
Quanto aos souvenirs, continuo guardando. Quem sabe um dia ainda faça com eles uma instalação artística e ganhe, por fim, um prêmio: algo que não vai escapar, com pressa, por entre os meus dedos. Algo que fique, enfim.
Ainda que, então, seja eu a ir embora.
.
Esta última pegou pirraça, não quer mesmo sair da minha cabeça...
Ah, aumentem bem o som: não dá pra ouvir Hooverphonic baixo!